terça-feira, 10 de junho de 2008

Capítulo IV - Fórmula Geral do Capital


Sumário:

A forma simples de circulação das mercadorias é M-D-M, vender para comprar. Mas há outra forma, completamente distinta: a forma D-M-D, comprar para vender. O dinheiro que percorre este último círculo é capital.

A forma D-M-D faz sentido apenas se existir um ganho. Caso contrário, mais valeria manter o dinheiro inicial, em vez de o expor ao risco. Deve ser descrita, portanto, como D-M-D', em que D'=D+ΔD. Surge um excedente, ou mais-valia, ΔD. A forma D-M-D' é a formula geral do capital.

A circulação simples, vender para comprar, tem como objectivo a obtenção de valor de uso. A circulação de dinheiro como capital tem o objectivo de obtenção de uma mais-valia. Não tem limite: quanto mais, melhor.

O valor parece ter adquirido a capacidade de gerar valor porque é valor. É como representante consciente deste movimento que o detentor do dinheiro se torna capitalista.


Comentário:

Atenção: D' é mais valor, mas mais tarde. Mais uma vez surge o problema da comparação entre valores existentes em diferentes momentos do tempo. Os economistas recorream à taxa de juro para fazer esta comparação.

Também não é absolutamente evidente que seja preferível manter D, em vez de o fazer circular. Por exemplo, o valor do papel-moeda diminui ao longo do tempo (à taxa de inflação).


segunda-feira, 9 de junho de 2008

2ª Secção - Transformação do Dinheiro em Capital

Conteúdos da Segunda Secção:


2ª Secção - Transformação do Dinheiro em Capital

Capítulo IV - Fórmula Geral do Capital

Capítulo V - Contradições da Fórmula Geral do Capital

Capítulo VI - Compra e Venda da Força de Trabalho


domingo, 8 de junho de 2008

Capítulo III - O Dinheiro ou a Circulação das Mercadorias

Sumário (1):

O preço exprime a relação entre o valor da mercadoria e o valor do dinheiro. Uma alta dos preços das mercadorias corresponde a:
(i) um aumento do seu valor, se o valor do dinheiro permanecer constante;
(ii) uma baixa no valor do dinheiro, se os valores das mercadorias não variarem.

A troca de mercadoria implica duas mudanças de forma: mercadoria-dinheiro-mercadoria (M-D-M).

A primeira metamorfose é a venda. O valor da mercadoria salta do seu corpo para o ouro (salto perigoso). O produto do trabalho é valor de troca, que se realiza no momento em que se converte em dinheiro. O preço de uma mercadoria antecipa a sua equivalência com o ouro, mas esta equivalência não é um facto consumado porque o ouro encontra-se na algibeira de outro. No momento da troca da mercadoria por ouro, este passa a representar o preço realizado da mercadoria.

A mercadoria desaparece no acto da sua conversão em dinheiro, não deixando qualquer rasto. O dinheiro não tem cheiro. É uma mercadoria dotada de uma forma sempre bem-vinda no mercado.

O tecelão troca os tecidos que produz por duas moedas de ouro (M-D), que troca em seguida pela Bíblia (D-M). O tecido sofre duas metamorfoses (tecido-dinheiro-Bíblia). O padre que vendeu a Bíblia (M-D) transforma esse dinheiro em aguardente (D-M). O agricultor vende o seu trigo (M-D), para depois comprar os tecidos ao tecelão (D-M). O taberneiro vende a aguardente (M-D) para comprar trigo (D-M).

A primeira metamorfose do tecido (tecido-dinheiro) é a segunda metamorfose do trigo (trigo-dinheiro-tecido). A segunda metamorfose do tecido (tecido-dinheiro-Bíblia) é a primeira metamorfose da Bíblia (Bíblia-dinheiro). O conjunto destas metamorfoses interligadas constitui a circulação das mercadorias.


Comentário (1):

Sinto que valeu a pena o esforço inicial. Parece-me que começam a ser abordadas as concepções centrais da teoria de Marx.

A vantagem negocial na venda de mercadorias parece ser atribuída ao detentor do dinheiro.

O exemplo do padre que vende a Bíblia para comprar aguardente é revelador dos preconceitos de Marx.




Sumário (2):

A quantidade de dinheiro exigida pela circulação de todas as mercadorias presentes no mercado é a soma total dos seus preços.

Consideremos as vendas (metamorfoses parciais) do trigo, tecido, Bíblia e aguardente. Se cada artigo custa duas libras, a soma dos seus preços é 8 libras, e, para as realizar, é necessário lançar 8 libras na circulação. Se estas mercadorias formarem a conhecida série de metamorfoses, trigo-2 libras-tecido-2 libras-Bíblia-2 libras-aguardente-2 libras, então as mesmas 2 libras fazem circular as mercadorias, e regressam às mãos do taberneiro. Realizam quatro voltas.

A soma dos preços das mercadorias dividida pelo número de voltas equivale à massa de dinheiro em circulação.

Se aumentarem as voltas do dinheiro, a sua massa diminui. Se as voltas diminuírem, a sua massa aumenta.

Dados os preços e a velocidade de circulação, fica determinada a massa de dinheiro. Se forem lançadas na circulação notas bancárias de 1 libra, sairão da circulação o mesmo número de libras em ouro (manigância bem conhecida por todos os bancos).

Lei: A massa de dos meios de circulação é determinada pela soma dos preços e pela velocidade média do curso da moeda.

A emissão do papel-moeda deve ser proporcional à quantidade de ouro (ou de prata) de que é símbolo, e que deveria realmente circular.

Se a massa total do papel for dupla da que deveria ser, uma nota de libra esterlina, que representava um quarto de onça de ouro, já só representará um oitavo de onça de ouro.



Comentário (2):

Marx descreve a equação quantitativa da moeda: P*Y=M*V.

Na teoria quantitativa da moeda (que os economistas aceitam como tendência de longo prazo), a velocidade de circulação da moeda (V) e o produto real (Y) são dados. A decisão do Banco Central relativamente à massa monetária (M) determina, indirectamente, o nível geral de preços (P).

Na teoria Keynesiana (que alguns economistas aceitam como descrição da economia no curto prazo), os preços são dados. A decisão do Banco Central relativamente à quantidade de moeda em circulação (M) influencia o produto real (Y) e a velocidade de circulação (V).

Marx parece estar de acordo com a teoria quantitativa. Inicialmente, considera a massa monetária como sendo endógena, de tal forma que, ao ser emitido papel-moeda, o ouro sai de circulação. Depois afirma que se duplicar a quantidade de papel-moeda, duplicam os preços das mercadorias expressos em notas bancárias, mas não os preços das mercadorias expressos em ouro.





Sumário (3):

Desenvolvendo-se a circulação das mercadorias, desenvolve-se a necessidade e o desejo de fixar e conservar o produto da primeira metamorfose. O vendedor transforma-se em acumulador de tesouros. O acumulador de tesouros sacrifica as inclinações da carne a este ídolo (dinheiro).

As mercadorias indianas são muito baratas porque os indianos enterram o dinheiro.

É frequente a existência de um intervalo de tempo entre a alienação da mercadoria e a realização do seu preço. Se o pagamento não for imediato, o vendedor torna-se credor, e o comprador torna-se devedor. O dinheiro torna-se meio de pagamento.

Assim sendo, corre dinheiro que representa mercadorias há muito fora de circulação, e correm mercadorias cujo equivalente em dinheiro só se apresentará muito mais tarde. Por outro lado, as dívidas contraídas e as dívidas vencidas são completamente incomensuráveis.



Comentário (3):

Marx diferencia a utilização do dinheiro para a realização de trocas da utilização do dinheiro para o pagamento de dívidas.

Não percebo em que sentido é que são incomensuráveis as dívidas contraídas e as dívidas vencidas.

Será que o problema é o da comparação de valores existentes em diferentes momentos do tempo? Os economistas baseam-se no juro para comparar o valor de uma unidade monetária no presente com o valor de uma unidade monetária no futuro. Marx ainda não mencionou o conceito de juro.

Talvez Marx assuma que uma unidade de trabalho incorporada no presente proporciona o mesmo valor do que uma unidade de trabalho incorporada no futuro. Nesse caso, chegará a uma forma de comparação intertemporal do valor totalmente diferente.




sábado, 7 de junho de 2008

Capítulo II - Sobre as Trocas



Sumário:

O valor de troca pode ser expresso numa medida equivalente a uma determinada quantidade de uma mercadoria especial (por exemplo: libras de ouro). Esta mercadoria especial torna-se, assim, dinheiro.

Esta mercadoria adquire um valor de uso adicional, correspondente à sua função social específica.



Comentário:

A moeda é um activo que é aceite como meio de pagamento. Cumpre ainda duas outras funções: é uma unidade de medida do valor e é um meio de reserva de valor.

Marx parece referir-se apenas, para já, à função de medida de valor.

A ideia de que uma mercadoria como o ouro possa ter um valor de uso adicional, pelo simples facto de servir de unidade de medida, parece-me discutível. Não tenho a certeza de ter compreendido bem esta observação. Vamos ver aonde é que isto nos leva...




Capítulo I - A Mercadoria



Sumário:

O valor de uso está associado ao benefício que advém do consumo de uma mercadoria. O valor de troca está associado a todas as outras mercadorias que podemos obter, por troca com a mercadoria em questão.

O valor de uma mercadoria é identificado com a quantidade de trabalho nela incorporada (teoria do valor-trabalho).



Comentário:

É um longo capítulo. Isto não vai ser pêra doce.

Percebe-se que uma mercadoria cuja produção requer a incorporação de uma grande quantidade de trabalho tenha muito valor, caso contrário não teria sido produzida. Mas parecer-me-ia mais adequado associar a quantidade de trabalho incorporada numa mercadoria à expectativa do valor futuro dessa mercadoria. Não é abordada a questão do valor de uma mercadoria que requer não apenas a utilização de trabalho mas também a utilização de capital.

A teoria do valor-trabalho foi exposta/defendida por Aristóteles, Adam Smith, David Ricardo e Karl Marx, e refutada/atacada por economistas da Escola Austríaca, como Eugen von Böhm-Bawerk, Karl Menger e Ludwig von Mises.



1ª Secção - A Mercadoria e o Dinheiro

Conteúdos da Primeira Secção:


1ª Secção - A Mercadoria e o Dinheiro

Capítulo I - A Mercadoria

Capítulo II - Sobre as Trocas

Capítulo III - O Dinheiro ou a Circulação das Mercadorias



VOLUME I - O Desenvolvimento da Produção Capitalista

Conteúdos do primeiro volume:


VOLUME I

O DESENVOLVIMENTO DA PRODUÇÃO CAPITALISTA (Secções 1-8)

1ª Secção: A Mercadoria e o Dinheiro

2ª Secção: Transformação do Dinheiro em Capital

3ª Secção: Produção da Mais-Valia Absoluta

4ª Secção: Produção da Mais-Valia Relativa

5ª Secção: Novas investigações sobre a Produção da Mais-Valia

6ª Secção: O Salário

7ª Secção: A Acumulação do Capital

8ª Secção: A Acumulação Primitiva


O PROCESSO DE CIRCULAÇÃO DO CAPITAL (Secções 9-10)

9ª Secção: As Metamorfoses do Capital e o Ciclo destas

10ª Secção: A Rotação do Capital



Curiosidade

A curiosidade é muita, e por isso proponho-me a ler e a tentar compreender "O Capital". Penso que muitos terão a mesma curiosidade, dado o mistério que envolve a obra de Karl Marx (1818-1883). Talvez vos interessem estes escritos de um leitor crítico.